Relacionamentos Inter-dependentes e Co-dependentes. Em qual estás?

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Relacionamentos Inter-dependentes e Co-dependentes. Como identificá-los?

Sejas homem ou mulher, em qualquer idade, de qualquer nacionalidade, com muitos ou poucos estudos académicos e alto ou baixo status social, se te encontras num relacionamento íntimo que te retira energia, temperado por conflitos, discussões e tensões frequentes, este artigo é para ti.

Com ele desejo inspirar relações harmoniosas, estimulantes, sustentáveis e profundamente significativas. Elas são o nosso maior bem.

Com o distanciamento social, o isolamento, as redes sociais e a inteligência artificial, a capacidade de nos relacionarmos, de navegarmos os sentimentos e de desenvolvermos inteligência inter-pessoal e emocional para o fazer, é atualmente uma prioridade para a nossa própria saúde.

Vamos começar com uma “regra matemática”?

Se o relacionamento em que estás te subtrai algo em vez de te adicionar, esse é o maior sinal para identificares a sua dinâmica.

O que te “subtrai” (ou retira) pode ser liberdade, paz, alegria, libido, energia, autenticidade, autonomia, identidade, integridade física, moral, segurança, etc.

Devido à falta de conhecimento e de educação ou compreensão, muitas vezes confundimos comportamentos co-dependentes dos nossos parceiros e parceiras com cuidado, preocupação ou gestos de amor. Isto, no entanto, não poderia estar mais longe da verdade e é extremamente importante que estejamos cientes destas distinções.

Relacionamento Inter-dependente

1. A Inter-dependência é caracterizada pelo envolvimento não-controlador com o outro, em que ambos “precisam” do outro de forma não-carente. Isso significa duas pessoas que se apoiam uma à outra e não se envolvem em guerras de poder. Inter-dependência significa ser mutuamente confiável, consistente e também, autónomo.

2. Embora os indivíduos num relacionamento Inter-dependente estejam em sincronia um com o outro, isso não significa que eles fiquem “presos” um ao outro. A individualidade e a manutenção da mesma são peças chave nos relacionamentos Inter-dependentes.

  • Como é que isso se traduz na prática?

Ambos partilham atividades, mas também deverão ter os seus próprios interesses, vidas sociais, familiares e preocupações para atender. Isso permite um belo equilíbrio onde o tempo separados alimenta a conexão quando estão juntos.

  • Como é que isto pode parecer ser assim mas não o ser de facto?

Um dos elementos só atende aos seus interesses ou compromissos quando o outro também está ocupado, porque não pode deixar o outro “sozinho”. Por exemplo, só vai jantar com o amigo, a amiga, os amigos, os filhos, os pais, o periquito, quando o parceiro ou parceira não está, ou também está “ocupado” com outra pessoa. Não há nada de errado em fazer coincidir planos, mas se for sempre assim é uma co-dependência mascarada. Os diferentes espaços relacionais que temos nas nossas vidas são vitais para o nosso equilíbrio e não devem ser interpretados como ameaças ou competições.

3. Há liberdade para experimentar e explorar e os elementos do casal não “atrelam” a sua auto-estima às opiniões do outro. A comunicação é aberta, livre, honesta e humilde, reconhecendo os erros que podem ser cometidos.Há espaço para concordar com discordar.

Os pontos acima mencionados constituem o que se chama um relacionamento saudável. Mas muitas são as pessoas – mulheres e homens – que vivem relacionamentos amorosos sem amor, ou seja, vivem relações de apego (co-dependência).

Analisemos então a dinâmica Co-dependente:

Relacionamento Co-dependente

Se te revês nas situações abaixo descritas, provavelmente estás (e és parte ativa!) num relacionamento Co-dependente.

1. Em relacionamentos Co-dependentes, há uma ilusão de apoio, onde presença e disponibilidade são na verdade uma forma mais subtil de controlar o outro.

Normalmente, há inconsistência por de um ou ambos os elementos, que se traduz assim na prática: momentos de imenso afeto, seguidos de ressentimento, e depois culpa. Este é o “ciclo da bosta”, como eu lhe chamo.

2. Manipulação faz parte dum relacionamento Co-dependente, ou seja, dizer as “coisas certas”, mas nunca verdadeiramente agir de acordo com elas. Isto controla o outro, mantendo-o agarrado ao relacionamento e à esperança dum futuro melhor. O elemento que manipula age de acordo com os seus próprios interesses e necessidades: conforto, prazer, reconhecimento, poder, notoriedade, dinheiro, status social, status familiar, etc.

3. Na maioria das vezes, há também falta de espaço e de liberdade, falta de interesses pessoais individuais e falta duma rede de apoio independente do parceiro/a, muitas vezes isolando-o/a da sua própria família e/ou amigos (exatamente para que se torne mais dependente do relacionamento e do parceiro/a).

4. Como referi, o pior aspecto da Co-dependência é o apego, que se traduz na falta de confiança e verdadeira admiração pelo outro por quem ele é, para deixá-lo seguir os seus próprios desejos. Uma dinâmica Co-dependente carece de transparência e humildade, bem como de incapacidade de admitir os próprios erros em tais situações e pedir desculpa.

Um “pedido de desculpas” por parte do infrator em relacionamentos Co-dependentes (se alguma vez acontecer!) será mais ou menos assim:

  • “Ok, desculpa! MAS se TU não tivesses dito / feito X, eu não teria Y” (gritado / insultado / negligenciado / desrespeitado / etc.)

É, na essência, um falso pedido de desculpas, uma vez que a pessoa não assume a responsabilidade pelas suas ações e o impacto que elas tiveram no outro/s e, ao invés disso, subtilmente culpa o outro.

Resumindo

Em geral, a Co-dependência tende a causar estagnação e/ou desgaste na vida dos envolvidos.

A Inter-dependência conduz ao crescimento e à evolução pessoal.

Muitas vezes é extremamente difícil identificar uma dinâmica Co-dependente se estivermos no meio dela. Fazer isso requer que tenhamos conhecimento de como ela se manifesta, e depois que façamos uma reflexão profunda e honesta com nós mesmos:

“Estou cego/a ou a não querer ver a realidade?”, “Estou preso à ideia que tenho desta pessoa e àquilo que eu acho que esta relação poderia ser, em vez do que ela é de facto?”

Se não sentimos algo como certo, geralmente é porque é errado (para nós). Confia no teu instinto, na tua intuição. O que é que ela te diz?

E, muita atenção:

Ao contrário do que muitos assumem, ninguém está livre de viver estas dinâmicas nas relações!

Não depende do sexo, idade, inteligência, nacionalidade, nível de estudos académicos ou independência financeira.

Como procurar ajuda?

Expõe a tua situação, a amigos, familiares, mentores, terapeutas ou a um coach relacional. Não te cales.

Não podemos ver um “trailer” dos relacionamentos antes de entrarmos neles, mas podemos retroceder o filme nas nossas cabeças e assisti-lo desde o início para percebermos onde falhamos e em que tipo de filme realmente estamos: num Co-dependente ou Inter-dependente?

Abaixo, deixo uma lista que poderá ajudar-te a identificar a dinâmica do teu Relacionamento Íntimo.

Com carinho,

Elisa

Relacionamentos Co-dependentes:

  • controlo (mascarado de “cuidar”)
  • lutas/jogos de poder
  • inconsistência no apoio ao outro (ou seja, um dos elementos negligencia de diferentes maneiras o outro, como forma de “castigo” quando têm uma discussão ou ficam chateados)
  • ressentimento
  • culpabilização
  • manipulação
  • desprezo
  • desconfiança
  • falta de espaço individual, familiar ou social, e/ou ele é visto como uma ameaça e portanto, criticado, desvalorizado, ridicularizado ou simplesmente “proibido” por um dos membros (“se fizeres isto, eu termino”, ou “ou eu ou eles”, ou “numa relação de casal não pode haver X – exemplo: segredos, não revelar senhas de contas, etc.)
  • apego (mascarado de “amor”)
  • incapacidade de reconhecer os próprios erros
  • incapacidade de pedir desculpa
  • incapacidade de assumir responsabilidade pelos próprios atos, responsabilizando o outro
  • sentirmo-nos responsáveis pelo bem estar ou felicidade do outro, por por resolver os seus problemas
  • medo de dizer “não”, de discordar ou de contrariar o outro, pela consequência que isso poderá ter (discussões, gritos, agressão verbal, psicológica ou física, “amuar”, tratamento do silêncio)
  • as discussões deixam de ser diálogos, e podem incluir discurso irónico e sarcástico, desprezo, vitimização, culpabilização, insultos, berros, humilhação, atos agressivos (bater de portas, partir de objetos, ameaças – “vou-me embora”, “vou-me matar”, etc.)
  • isolamento do outro como forma de controlo, ou necessidade excessiva de zelo (“mãe” do parceiro dizendo o que tem de fazer, quando e como ou fazendo por ele, ou “pai” da parceira, menosprezando a sua forma natural de fazer as coisas, diminuindo a sua capacidade, criticando excessivamente)
  • fases luas de mel, intercaladas de fases de discussões tsunami, com afastamento e silêncio a seguir, seguidas de re-aproximação sem real resolução dos conflitos, e uma nova fase lua de mel
  • sensação de que a relação não está ir para nenhum lado e de que os problemas são sempre o os mesmos e não se resolvem
  • vontade de mudar o outro, de querer que ele seja “de outra maneira”
  • desgaste, ansiedade e stress, ou então, apatia, sensação de peso nos ombros e de insatisfação, diminuição da sensação de bem estar, de paz, aparecimento de problemas de saúde, falta de energia, falta de libido, etc.
  • gostamos do outro pelo que ele nos dá (ou retira)

Relacionamentos Inter-dependentes:

  • naturalidade na comunicação
  • abertura
  • liberdade para sermos quem somos
  • sensação de que a relação está a ir em alguma direção evolutiva
  • confiança e confiabilidade
  • consistência
  • apreciação e incentivo da individualidade de cada um
  • escuta ativa
  • equilíbrio no dar e receber e nas cedências
  • todos os espaços da relação e das vidas individuais de cada um são respeitados, encorajados e alimentados
  • honestidade
  • transparência
  • humildade
  • pré-disposição para brincar com outro, para manter o dia a dia leve e minimizar os problemas
  • vontade de aprender e querer tornar-se numa pessoa melhor para si próprio e para o outro, em vez de querer mudar o outro ou controlá-lo
  • gostamos do outro pelo que ele é

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