Amo

a minha “solidão voluntária”. É uma necessidade como o ar que respiro, como o sangue que corre nas minhas veias, como o coração que me bate no peito. Sem parar, sem parar.

De todas as pequenas

grandes coisas desta vida, uma das que mais prezo é sentar-me à janela dum comboio e deixar que aquela carruagem me leve para “longe dali” enquanto o meu corpo fica quieto. Projeto o que sinto nas paisagens que vejo, nas nuvens, no sol, ou na chuva, nas conversas que acontecem em assentos alheios, na música que escuto ou nos sons mecânicos e rítmicos do “puxa-terra”.

Cada vez que

tenho de viajar, nada me irrita no processo. Está atrasado o vôo? Sento-me e dou graças de ter um tempo morto para viver um livro. Quem sabe alguém falará comigo, entretanto. Isso depende em que circunstância me encontro e em que cultura. De qualquer das formas, nunca me aborreço. Pois se não puder falar, escrevo. E se não puder escrever, leio. E se não puder ler, ouço música. E se não puder fazê-lo, observo. E se, por algum azar da vida também isso me for tirado, penso. Ter tempo para pensar é uma libertação. Às vezes posso fazer o que quiser e simplesmente escolho observar e pensar. Quanta coisa acontece dentro de nós quando testemunhamos o que está a acontecer lá fora? É todo um mundo que gira cá dentro, é uma galáxia, é todo um universo.

Não, eu nunca me aborreço.

Não por ter tempo para “matar”. Aborreço-me sim, se tiver de gastar tempo duma forma que me mata. Aborreço-me com trivialidades e pessoas aborrecidas. Aborrecem-me as coisas e as pessoas que me tornam burra, as que acham que o tempo deve ser morto e não aguentam ter tempo, quando tempo é, de facto, o único que temos. Com sorte.

As malas são pesadas, custa levantá-las e colocá-las no seu lugar. E, assim que me sento, parece que virei uma página, ou simplesmente mudei de parágrafo.

Por fim, o momento em que parece que já estamos em marcha, mas afinal era o comboio ao lado. Adoro essas pequenas ilusões que nos lembram que tudo é subjetivo na vida, tudo é real e tudo é falso ou mesmo tempo.

E depois partimos. Estou finalmente só.

Fotos: TIBETE. Comboio de China para Tibete, 2010.

01_2 Comboio para Lhassa-pola

6 replies
  1. Rui Rodrigues
    Rui Rodrigues says:

    Viajar é preciso. E a viagem é sempre pessoal, por isso não interessa onde estamos ou aonde vamos, desde que a viagem se cumpra. Somos idênticos nessa vertigem. Beijo

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    • elisadelima
      elisadelima says:

      Que bonito 🙂 “Desde que a viagem se cumpra.” Adorei 🙂 E sim, uma aventura ou uma viagem pode ser simplesmente uma conversa a dois, por exemplo. Beijo

      Reply

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